“E foi ali, na fila do banco, vendo uma moça
qualquer derrubar seu bilhete com a senha, que eu lembrei de você.
Depois de meses do nosso fim, subitamente me peguei pensando em você, me
lembrando de suas manias. Você costumava abaixar pra pegar as chaves do
nosso apartamento (as quais você frequentemente deixava cair, talvez
por descuido) exatamente do mesmo jeito que aquela mulher se abaixou
para pegar sua senha, a mesma leveza no movimento, a mesma cara de
confusão estampada no rosto, o mesmo jeitinho encantador. Depois de
meses de terapia pessoal, aquele simples gesto daquela mulher qualquer
me destruiu, me fez lembrar do quanto eu sentia sua falta, do quanto eu
sentia nossa falta. Estranho, não é? Você deve estar por aí em algum bar
com seus amigos, rindo espontaneamente (naquele tom que nos leva a rir
junto, mesmo sem saber o por que) ou até mesmo flertando com outro cara,
talvez esse cara tenha até mesmo a mesma barba rala que você me pedia
para manter (“não tira não, mô, eu gosto assim, é seu charme”), talvez
ele também goste de uma heineken bem gelada, pra tomar no bico mesmo,
pra que sujar copo? Vocês vão se olhar, você irá sorrir pra ele, e ele
vai achar seu sorriso lindo (mas posso te garantir que ninguém será
capaz de amar mais esse sorriso do que eu amei, e ainda amo) e vai se
aproximar para conversar com você. A conversa vai fluir, você vai notar
que os olhos do sujeito se esquivam dos seus de vez em quando, e miram
seus seios que ficam quase à mostra em seu vestido vermelho (desculpa a
indelicadeza, mas você realmente fica uma delícia nele), mas vai fingir
que não percebe. Vai rir das coisas sem graça que ele disser, vai
perguntar coisas banais só para a conversa não ter fim e, finalmente,
vocês sairão do bar juntos. Ele te levará para casa, te oferecerá um
vinho (o qual provavelmente você recusará, pois tem aversão a vinho,
prefere cerveja ou algum destilado), começará a falar com você numa voz
mais mansa, quase um sussurro, e você corresponderá, com um meio sorriso
de “quero mais” convidando-o para se aproximar. Então ele irá obedecer
às ordens do seu meio sorriso e te puxará para perto, começará a te
beijar, e você simplesmente se deixará levar por ele até seu quarto, se
deitarão juntos na cama e farão amor da maneira mais agressiva que o
sujeito conseguir (será que ele é melhor que eu nesse quesito?), farão
amor até vocês se esgotarem, e adormecerão abraçados. Na manhã seguinte
você irá acordar sozinha na casa dele, e encontrará um bilhete colado no
espelho avisando que o cara teve que sair para trabalhar, mas que você
pode ficar à vontade, para demorar o tempo que quiser, ele também
deixará uma nota de 50 e um cartão com seu telefone (é só pra mim que
isso parece um “volte sempre”?). Você se vestirá e sairá pela janela, já
que a porta da frente estava trancada, pegará um táxi para seu (antigo
nosso) apartamento, tomará um banho e pensará sobre a noite anterior,
porém já planejando a noite atual. Será que é essa vida que você leva
agora? Possivelmente. Mas vendo aquela mulher na fila do banco, o que
mais doeu foi me tocar do seguinte: Eu nunca mais poderei te ver fazendo
o mesmo gesto, nunca mais poderei rir de você por ter deixado as chaves
caírem novamente, nunca mais poderei te ver pulando em cima de mim
depois de um dia cansativo no trabalho (o qual você largou após nosso
término), nunca mais poderei ter você como eu tinha. O que dói foi que
eu lembrei de você, e lembrei da falta que você faz, lembrei que não fui
suficiente para te fazer permanecer, e resolvi deixar as contas para
pagar algum outro dia, pois continuar a olhar aquela mulher com a senha
já em mãos seria a pior das torturas, por que eu não aguentaria tal tipo
de violência contra meu psicológico. O que eu sempre quis te dizer, mas
nunca tive a chance é que, não importa com quantos caras você passe a
noite, não importa quantos elogios, abraços, sorrisos e beijos você
receber, não importa quantos olhares você trocar, e nem quantas casas
visitar, não importa em quantos restaurantes esses sujeitos te levem,
uma coisa é certa: Nenhum desses caras nunca será capaz de te amar que
nem eu te amei.”
| Leonardo Becker |
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