E foi ali, na fila do banco, vendo uma moça qualquer derrubar seu bilhete com a senha... - Simplesmente Sereníssima

E foi ali, na fila do banco, vendo uma moça qualquer derrubar seu bilhete com a senha...

em 30 de outubro de 2013

E foi ali, na fila do banco, vendo uma moça qualquer derrubar seu bilhete com a senha, que eu lembrei de você. Depois de meses do nosso fim, subitamente me peguei pensando em você, me lembrando de suas manias. Você costumava abaixar pra pegar as chaves do nosso apartamento (as quais você frequentemente deixava cair, talvez por descuido) exatamente do mesmo jeito que aquela mulher se abaixou para pegar sua senha, a mesma leveza no movimento, a mesma cara de confusão estampada no rosto, o mesmo jeitinho encantador. Depois de meses de terapia pessoal, aquele simples gesto daquela mulher qualquer me destruiu, me fez lembrar do quanto eu sentia sua falta, do quanto eu sentia nossa falta. Estranho, não é? Você deve estar por aí em algum bar com seus amigos, rindo espontaneamente (naquele tom que nos leva a rir junto, mesmo sem saber o por que) ou até mesmo flertando com outro cara, talvez esse cara tenha até mesmo a mesma barba rala que você me pedia para manter (“não tira não, mô, eu gosto assim, é seu charme”), talvez ele também goste de uma heineken bem gelada, pra tomar no bico mesmo, pra que sujar copo? Vocês vão se olhar, você irá sorrir pra ele, e ele vai achar seu sorriso lindo (mas posso te garantir que ninguém será capaz de amar mais esse sorriso do que eu amei, e ainda amo) e vai se aproximar para conversar com você. A conversa vai fluir, você vai notar que os olhos do sujeito se esquivam dos seus de vez em quando, e miram seus seios que ficam quase à mostra em seu vestido vermelho (desculpa a indelicadeza, mas você realmente fica uma delícia nele), mas vai fingir que não percebe. Vai rir das coisas sem graça que ele disser, vai perguntar coisas banais só para a conversa não ter fim e, finalmente, vocês sairão do bar juntos. Ele te levará para casa, te oferecerá um vinho (o qual provavelmente você recusará, pois tem aversão a vinho, prefere cerveja ou algum destilado), começará a falar com você numa voz mais mansa, quase um sussurro, e você corresponderá, com um meio sorriso de “quero mais” convidando-o para se aproximar. Então ele irá obedecer às ordens do seu meio sorriso e te puxará para perto, começará a te beijar, e você simplesmente se deixará levar por ele até seu quarto, se deitarão juntos na cama e farão amor da maneira mais agressiva que o sujeito conseguir (será que ele é melhor que eu nesse quesito?), farão amor até vocês se esgotarem, e adormecerão abraçados. Na manhã seguinte você irá acordar sozinha na casa dele, e encontrará um bilhete colado no espelho avisando que o cara teve que sair para trabalhar, mas que você pode ficar à vontade, para demorar o tempo que quiser, ele também deixará uma nota de 50 e um cartão com seu telefone (é só pra mim que isso parece um “volte sempre”?). Você se vestirá e sairá pela janela, já que a porta da frente estava trancada, pegará um táxi para seu (antigo nosso) apartamento, tomará um banho e pensará sobre a noite anterior, porém já planejando a noite atual. Será que é essa vida que você leva agora? Possivelmente. Mas vendo aquela mulher na fila do banco, o que mais doeu foi me tocar do seguinte: Eu nunca mais poderei te ver fazendo o mesmo gesto, nunca mais poderei rir de você por ter deixado as chaves caírem novamente, nunca mais poderei te ver pulando em cima de mim depois de um dia cansativo no trabalho (o qual você largou após nosso término), nunca mais poderei ter você como eu tinha. O que dói foi que eu lembrei de você, e lembrei da falta que você faz, lembrei que não fui suficiente para te fazer permanecer, e resolvi deixar as contas para pagar algum outro dia, pois continuar a olhar aquela mulher com a senha já em mãos seria a pior das torturas, por que eu não aguentaria tal tipo de violência contra meu psicológico. O que eu sempre quis te dizer, mas nunca tive a chance é que, não importa com quantos caras você passe a noite, não importa quantos elogios, abraços, sorrisos e beijos você receber, não importa quantos olhares você trocar, e nem quantas casas visitar, não importa em quantos restaurantes esses sujeitos te levem, uma coisa é certa: Nenhum desses caras nunca será capaz de te amar que nem eu te amei.
Leonardo Becker

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