“Eu também tenho medo desses dias frios em que a
gente se guarda dentro e, ainda que tão-dentro, a temperatura interior
aparenta ser muito mais baixa que a do mundo. Sendo profundamente
íntimos e profundamente soturnos. Desses dias em que os céus choram, ou a
terra suga lágrimas, desses sorrateiros em que você, eu e um
desconhecido qualquer nos recolhemos cada qual em seu colchão, cabana ou
coberta. A casa sempre foi particular, o quarto sempre foi solitário,
mas os pontos, paredes e quadros abandonados no espaço de um-só
acentuam-se com a trovoada forte, ou com a neve delicada, ou com o
granizo bombardeante, finalmente nos damos conta de
sermos-eternamente-ímpares. Que há de importante na intensidade se,
afinal, trancamo-nos nesse peito (e abismo) desconhecido até a passagem
dos termômetros azuis? Sua pele é gelada e suave, e ainda tão macia
queima-me a pele quando segura-me no braço. Seria singelo se o extremo
frio não deixasse queimaduras tão horríveis quanto a mais vermelha
brasa, e nós somos umas crianças extremistas, meu bem, extremistas.
Absolutamente impetuosas - vorazes - explosivas - beijadoras até nas
dores. Ou resguardadas, cabisbaixas, realeza nossa e tão sem valor que
nem ao menos vale meus hifens de respiração e grito, digo tudo num
sussurro e deixo que se perca. Perdeu-se. Perdi-me. Dias frios tão
insossos que nem ao menos valem a compreensão do medo.”
Claudia Calado
Claudia Calado