“Nós podemos sentar em algum meio-fio em alguma
meia-noite vivida pela metade e tentar falar tudo o que não falamos.
Dizer como nossos pais morreram e não deu pra chegar no velório a tempo,
mas como os colocamos em nossas orações vazias. Podemos conversar sobre
nossas descrenças que continuam mais gritantes que tudo. Que ver já não
é mais suficiente pra crer, prestar atenção já não é mais suficiente
pra entender e olhar pro céu já não é mais suficiente pra acalmar a
alma. Não a minha. E que nossa sorte não é mais medidas em bingos, nossa
velocidade em relâmpagos e nossa inteligência em livrinhos. Podemos
falar sobre como eu continuo confusa e confusa e confusa e frustrada. E
você continua fraco e achando que a vida está só começando, mas a gente
sabe que nossa vida já começou há tempos, já acabou há tempos, já
ressuscitou há mais tempos ainda e nada melhorou nem vai melhorar. Por
que nós não merecemos? Por que nós não somos dignos? Por que não somos
inteiros? Não sei. Talvez por que nós não nascemos sortudos o suficiente
ou só por que nós nascemos, como você gosta de dizer que gostaria de
‘não-ser’. Mas você é. Nós somos. Dois trapos, mas somos. E apesar
disso, eu tenho muita pena de que tenhamos que morrer, porque você não
acredita que exista a eternidade, mas quer vivê-la comigo. Eu já me
preocupo se haverá assunto suficiente pra toda eternidade. Haverá? Eu
não quero que acabe aqui. Não quero que minha vida, mesmo sendo a
podridão que é, se acabe aqui. Eu quero me despedir, mas não haverá
tempo para despedidas. Quem ficar, sempre vai querer o último abraço, o
último beijo, o último carinho e não vai ter. E a saudade não vai
cessar. Se a vida acabar por aqui. Eu quero morrer primeiro.”
| Cecília P., Sisudez. |
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