22 de julho de 2013

Nós podemos sentar em algum meio-fio em alguma meia-noite vivida pela metade...

Nós podemos sentar em algum meio-fio em alguma meia-noite vivida pela metade e tentar falar tudo o que não falamos. Dizer como nossos pais morreram e não deu pra chegar no velório a tempo, mas como os colocamos em nossas orações vazias. Podemos conversar sobre nossas descrenças que continuam mais gritantes que tudo. Que ver já não é mais suficiente pra crer, prestar atenção já não é mais suficiente pra entender e olhar pro céu já não é mais suficiente pra acalmar a alma. Não a minha. E que nossa sorte não é mais medidas em bingos, nossa velocidade em relâmpagos e nossa inteligência em livrinhos. Podemos falar sobre como eu continuo confusa e confusa e confusa e frustrada. E você continua fraco e achando que a vida está só começando, mas a gente sabe que nossa vida já começou há tempos, já acabou há tempos, já ressuscitou há mais tempos ainda e nada melhorou nem vai melhorar. Por que nós não merecemos? Por que nós não somos dignos? Por que não somos inteiros? Não sei. Talvez por que nós não nascemos sortudos o suficiente ou só por que nós nascemos, como você gosta de dizer que gostaria de ‘não-ser’. Mas você é. Nós somos. Dois trapos, mas somos. E apesar disso, eu tenho muita pena de que tenhamos que morrer, porque você não acredita que exista a eternidade, mas quer vivê-la comigo. Eu já me preocupo se haverá assunto suficiente pra toda eternidade. Haverá? Eu não quero que acabe aqui. Não quero que minha vida, mesmo sendo a podridão que é, se acabe aqui. Eu quero me despedir, mas não haverá tempo para despedidas. Quem ficar, sempre vai querer o último abraço, o último beijo, o último carinho e não vai ter. E a saudade não vai cessar. Se a vida acabar por aqui. Eu quero morrer primeiro.
  Cecília P., Sisudez. 

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