“Você sabe o que significa um balde de água
fria? Eu sei. É mais ou menos quando a gente tem uma coisa bem quente no
peito, nas mãos ou na cabeça. Um sonho, talvez. Muitos deles, quem
sabe. E você dá Farinha Láctea Nestlé para todos eles, que vão crescendo
fortes e sadios e, de repente, não mais que de repente, tudo muda.
Aquilo que era quente recebe água gelada. Choque térmico. Em outras
palavras, ou melhor, em outras metáforas: o amor (sempre ele) está
saudável, com as vacinas em dia, tomando vitaminas e praticando
exercícios físicos, ou seja, (em tese) nenhuma grave doença irá pegá-lo
de surpresa, afinal, ele não bebe nem fuma, cuida a alimentação e ainda
por cima se exercita. Pois um dia, atravessando a rua, o amor é
atropelado por um caminhão gigante, que passou no sinal vermelho em alta
velocidade, com raiva, ódio, feroz. O amor perde o equilíbrio, o
controle, capota várias vezes, se machuca, bate a cabeça, desmaia.
Transeuntes chamam ajuda. Ambulância, maca, oxigênio, respiração boca a
boca. Uéin, uéin, uéin *barulho da ambulância*. Levam o amor direto para
a UTI. E lá ele fica, inconsciente, imóvel, sem receber visitas,
tomando morfina na veia: porque tem muita coisa que dói (demais).”
| Clarissa Corrêa. |
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