
A APARÊNCIA DE OUTRA PESSOA
Na infância eu odiava minhas sardas. Tentei, inúmeras vezes, tirá-las. Esfregava coisas no rosto, dizia pra minha mãe que não gostava delas, que não queria aquilo tudo na cara. Eu era criança. Uma simples criança. Mas na escola ouvia piadinhas de outras crianças, tipo “sardinha enlatada” e coisas do gênero. Fora os adultos, que se referiam a mim como “aquela sardenta ali, ó”. Eu não tinha nome: era a sardenta e ponto. Convivi mal com minhas sardas até os 18 anos, até que passei a me enxergar diferente. Por que eu tinha que ser igual aos outros? Por que eu não podia ser bonita tendo várias pintinhas? Passei a amar cada pontinho que faz parte do meu rosto, dos meus ombros e do meu colo. Foi um processo longo e um pouco sofrido, e sei que nem todo mundo tem a sorte de se acolher e aprender a se amar.
Muitas pessoas passam a vida com algum complexo, odiando alguma coisa no seu rosto ou no seu corpo. Assisti recentemente o documentário da Taylor Swift, Miss Americana. Gostei muito do que ela disse: “Há sempre um padrão de beleza que você não alcança. Porque se você é magra, não tem a bunda que todo mundo quer. Mas se você pesa o bastante para ter bunda, sua barriga não é lisinha. É tudo impossível”. Eu estou (bem) acima do peso. Como não me sinto bem assim estou me esforçando (com dieta, atividade física e terapia) pra mudar. Não porque a sociedade diz que o bonito é ser assim ou assado, mas porque EU me sinto bem no meu peso ideal. Entende a diferença? Não são os outros, sou eu.
Dia desses vi comentários em uma foto de uma atriz que me chocaram. Um dos comentários era “o que aconteceu com ela?”. Gente, isso é inadmissível. A atriz em questão falou que tem um distúrbio alimentar, que passou a vida tentando ser como os outros diziam que ela tinha que ser e que agora se libertou. Agora te pergunto: o que VOCÊ tem a ver com o peso de outra pessoa? Quem é você pra dizer se a outra pessoa é gorda ou feia? Você pararia alguém na rua pra dizer “ei, você está gordo”?!? Então não comente na foto de alguém esse tipo de coisa. Educação vale dentro e fora das redes sociais. Respeito, idem. Anteontem postei uma foto com meu filho na praia. Recebi vários comentários. E inacreditáveis sete pessoas escreveram assim “nossa, que sardenta”, “quanta sarda!”, “tudo isso de sarda?”, “só tem sarda aí” e coisas do gênero. Nada ofensivo. Vamos de novo: nada ofensivo? E se eu ainda não convivesse bem com elas? Me diz? Se eu não gostasse delas ia ficar com a pulga atrás da orelha. E ia me sentir mal. Se você não tem nada de positivo pra dizer pra outra pessoa, não diga. Simples. Sou cheia de sardas, lógico, mas você me pararia na rua sem me conhecer pra dizer “nossa, quantas sardas você tem!”? Sim ou não? Pega a visão: jamais comente sobre a aparência de outra pessoa.
Autora: Clarissa Corrêa - @correa_clarissa
Imagens Pixabay
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