♥ ♥ Tainá Müller Balé das emoções Revista TOP Magazine ♥ ♥ @tainamuller - Simplesmente Sereníssima

♥ ♥ Tainá Müller Balé das emoções Revista TOP Magazine ♥ ♥ @tainamuller

em 26 de maio de 2014



 
Encarnando uma bailarina, a atriz faz seu segundo ensaio para TOP. Com a delicadeza de quem dança, ela fala do amor. E só como quem ama o que faz, doou-se de corpo e alma à encenação.
Faz um ano e meio que fizemos nossa primeira capa com Tainá Müller e conversamos pela primeira vez (TOP Magazine, edição 166). De lá para cá, a gaúcha revelada no cinema com o filme Cão sem dono, de 2007, emendou as novelas Cheias de charme (2012), Flor do Caribe (2014) e a atual Em família, que a alçou ao topo da popularidade na TV como a instigante fotógrafa Marina, que tenta a qualquer custo seduzir Clara – personagem vivida por Giovanna Antonelli. Uma simples troca de e-mails fez com que Tainá me expressasse seu desejo para este ensaio: ser bailarina. 
“Pra mim a dança é a expressão artística mais visceral, mais orgânica que existe. Eu sonhava ser bailarina quando era criança. Aos 7 comecei a fazer balé e dancei até os 14. Era completamente apaixonada, mas tive que parar por um problema no joelho que impediria meu desenvolvimento pleno na atividade. Chorei muito e, dramaticamente, trancafiei minhas sapatilhas no alto do armário, para nunca mais ver. Mas foi o amor pela dança que me jogou no teatro. Acho que foi para rememorar o viciante frio na barriga que sentia ao subir no palco do teatro da Ospa, onde me apresentava, que virei atriz.’’ 
E com a mesma delicadeza de seus impecáveis passos de balé revisitados neste ensaio, a atriz se movimentou entre suas personas e emoções nesta conversa, que aconteceu em meu carro, enquanto eu a levava do estúdio ao aeroporto, em São Paulo, sem a menor pressa. Confira as entrelinhas.
TOP – Com a fotógrafa lésbica Marina, na novela Em família, você atingiu sua maior popularidade na TV. Enquanto você, Tainá, tem uma energia delicadamente yin, sua personagem é bem yang e usa o máximo de seu poder de sedução. Qual é o seu truque? Você teria dificuldade em agir como ela na vida real?
Tainá Müller
– Quando peguei o texto da Marina, era bem explícito o quanto ela era articulada na sedução. Acredito que a personagem talvez nem se dê conta do quanto faz uso desse artifício. Então busquei essa energia, mas creio ser uma construção que vem desde os óculos que escolhi pra ela usar, o batom vermelho, que é um símbolo muito feminino, que achei que ia dar um contraste legal nessa energia yang dela. A Marina vai atrás do que quer, é obstinada e quase não dá tempo de a pessoa dizer não. Ela é imperativa. E eu sou uma mulher que tem esse lado yang, mas é mais em relação ao trabalho. Aqui, por exemplo, eu sou muito, mas muito yin. Eu teria dificuldade de ser ela, por exemplo, no caso de comandar um estúdio. Já fui chefe e não foi fácil coordenar pessoas, porque você tem que ser um pouco imperativa nesse sentido, né?

TOP – A Marina pode ter um poder de sedução inconsciente, mas a Tainá sabe bem o que sua personagem está fazendo (risos). Esse papel tem potencializado esse artifício sedutor em você?
Tainá – Não me sinto diferente fora de cena depois da Marina. O teatro dá a possibilidade de a gente viver nossos exageros de forma lúdica, segura. Então é legal brincar com a sedução da personagem, pensar como seria viver a vida dessa mulher que é uma artista do olhar, que tem suas musas e se encanta com a beleza feminina a ponto de desejar sexualmente. Já eu, pessoa física (risos), não sou “matadora” como a Marina, não parto para cima. Pelo contrário, posso até parecer um pouco tímida num primeiro encontro. Prefiro atrair pela conversa, testar a cumplicidade e ver se dá liga, a tal “química” de que tanto falam. Sou sutil, ela é explícita.

TOP – Existe alguma sutileza da personagem que você tenha incorporado no dia a dia?
Tainá
– A Marina é uma artista do olhar, e neste período em que a estou vivendo intensamente, acho que o meu olhar está ficando mais apurado também. Até esteticamente, você viu que eu dei uns pitacos nestas fotos do ensaio também... (risos) Comecei a gostar mais de fotografia. E acho que a personagem é tão apaixonada pela alma feminina que ela quer consumir fisicamente essas mulheres também. Ela quer ter esse contato, vai pro físico, mas começa sempre no subjetivo, digamos. Acho que estou com esse olhar mais voltado para o meu feminino e o das outras mulheres. Sou de uma família que fora meu pai só tem “elas”: mãe, duas irmãs, eu, até as cachorras são fêmeas lá em casa! (risos) O feminino sempre esteve presente e hoje em dia é quase um resgate.

TOP – Se não fosse a Clara (Giovanna Antonelli), quem seria o grande fetiche da Marina?
Tainá – Ah, a Clara é a musa máxima do universo da Marina! Até disseram que ia entrar mais namorada na novela, mas não sei se é verdade isso, nunca chegou nada pra mim, embora eu tenha lido por aí. Mas a Clara é a musa inspiradora da Marina, eu acho que ela não consegue, nesse momento, ver mais ninguém no mundo. 

TOP – Você já teve uma paixão platônica louca por alguém? 
Tainá – Tive uma paixão platônica na minha vida, quando eu tinha 12 anos de idade, e eu gostava de um menininho da escola que não me deu bola e depois eu traumatizei com essa coisa de amor platônico, e eu não conseguia. 

TOP – Já se apaixonou por alguma mulher?
Tainá – Não, nunca aconteceu, até hoje nunca me apaixonei por nenhuma mulher.

TOP – E se fosse para viver uma experiência de campo com alguém do mesmo sexo, como no filme Azul é a cor mais quente, quem você escolheria?
Tainá –Puxa, se isso acontecesse eu teria que parar para pensar e pesquisar, juro que não me vem nenhum nome à cabeça... Mas vou pensando até chegarmos ao aeroporto...

TOP – O que você tem lido ultimamente?
Tainá – Capítulos de Em família! (risos) Só consigo ler outras coisas quando estou no avião. Agora eu estou lendo um que eu ganhei da minha sogra, que até tem a ver com psicanálise,
Mulheres que correm com os lobos. Ele é meio difícil, mas fala de uma coisa que eu gosto muito, os arquétipos, e a Marina é um.

TOP – Em relação ao corpo, até onde você iria com o nu? 
Tainá – O nu comercial não é uma coisa que me interesse no momento, mas a gente nunca sabe como vai ser o dia de amanhã, né? Com o nu eu iria até onde eu me sentisse confortável. Acho que é um conjunto de fatores muito subjetivo, não dá para dizer o limite. É um filme do Woody Allen ou do Lars Von Trier? Depende muito.

TOP – Você encararia uma relação aberta?
Tainá
–  Olha, sei que pelo menos neste ponto da minha vida eu não estaria preparada para ter uma relação aberta. Eu morreria de ciúme, não tenho essa transcendência ainda.

TOP – Como você lida com temas tabu como a traição? Se fosse traída, você seria capaz de passar por cima?
Tainá
–  Não penso que traição seja um tabu, sinceramente. Pelo contrário, acho que é banal. Sobre passar por cima, depende, eu teria que me colocar exatamente na situação pra ver. É quase um clichê, mas a traição acontece quando o casal tem um pacto, seja ele qual for, e uma das partes descumpre esse acordo e não informa a parte interessada. O casamento não deixa de ser uma sociedade. Eu particularmente gosto que cumpram o combinado, porque se eu não cumpri-lo em alguma instância, gosto de ser mulher o suficiente pra assumir.

TOP – Agora que você está no auge da popularidade, está sendo muito mais assediada?
Tainá –  Eu não tenho saído muito nas ruas pra ver, tenho ficado muito no trabalho, mas nas redes sociais eu recebo mensagens engraçadíssimas! (risos)

TOP – De mulheres, então, nem se fala, né? 
Tainá – Sim, de mulheres! (risos) Se tu entrar no meu
Instagram, então... Entra, entra! (risos)

TOP – Teve alguma situação surreal que te surpreendeu muito?
Tainá – As mensagens que recebo de mulheres fora do Brasil. Esses dias recebi uma encomenda de uma peruana, que mandou roupas lá do Peru com um bilhete dizendo que ela não tinha interesse sexual em mim, mas queria que eu usasse aquelas roupas! (risos) E a novela nem está passando lá no Peru, isso que eu achei engraçado...

TOP – Como está sendo a química com a Giovanna e com o Gianne? Marina e Clara convencem muito, está todo mundo torcendo por elas.
Tainá – Cara, a Giovanna e o Gianne, além de serem atores que eu admiro, são uns queridos! De verdade, são muito parceiros, e tem aquela coisa: eles estão há mais tempo do que eu e me receberam muito bem. E a gente pensa nesses personagens muito junto também. A Giovanna contribui muito para o meu trabalho, e eu acabo sugerindo coisas pro dela. A gente troca muito, a Giovana é um barato! Quem a conhece sabe que ela é realmente muito alto-astral!

TOP – Tem alguma peculiaridade que vocês criaram juntas para o casal “Clarina”?
Tainá – Ah, várias coisas. Às vezes vêm coisas espontâneas na cena, e outras pensadas, como um gesto, um toque... A gente toca no rosto, toca no ombro, tudo quer dizer uma coisa, né? Tipo: “Ah, nessa vamos apimentar um pouco mais, nessa um pouco menos”. Então é isso, a gente vai dosando a pimenta das cenas, pensando em conjunto...

TOP – Vai rolar beijo gay? Você torce? Como você, Tainá, se sentiria com essa experiência?
Tainá – Ah, a história delas está indo por um caminho que, se continuar assim, é natural que aconteça, mas a gente nunca sabe, né? Do ponto de vista de Marina, é claro que ela torce, pois a Clara é o grande objetivo dela, não adianta. Quanto a mim, ainda não vivenciei essa experiência, mas assim que eu passar por isso, te conto!

TOP – Ator é muito louco, em geral?
Tainá –  (risos) Ator pode ser muito louco! Se tiver lá o bichinho da esquizofrenia, pega! Pode ser, eu acho, porque a gente brinca muito com os limites da realidade e da ficção.

TOP – Qual de seus trabalhos te levou mais ao borderline?
Tainá – Cara, borderline eu acho que é muito radical falar. Eu nunca fiquei assim, graças a Deus, porque é uma doença muito punk. Mas de eu ficar levemente perturbada, teve vários, porque todo o processo de uma personagem tem uma dorzinha, e acredito que isso faça parte. Porque você tem que encontrar as sombras daquela personagem, e às vezes elas vão de encontro com as suas ou não. Então você tem que buscar as suas também, e é uma coisa que mexe muito com o emocional. Mas para mim quem não quer brincar não desce pro playground... Creio que todo ator já gosta um pouco disso. É 
meio paraquedista das emoções. 

TOP – E hoje qual está sendo o seu maior desafio? Quais sombras estão mexendo com você?
Tainá –  Acho que a parte mais dolorida e sofrida do processo é sempre o início da construção de uma personagem. Não é que a gente quer sair daquela situação, mas é como um parto, entendeu? Dói pra ter uma coisa nova. São angústias de escolha de caminho, sentimentos naturais. Por exemplo, a Marina tinha todas essas coisas que são diferentes de mim, e eu tive que buscar, e é bom também, porque é um desafio.

TOP – De alguma forma isso deve impactar em você, mexer com a sua energia no dia a dia.
Tainá – Mexe, eu acho que mexe... Mas depois passa também. Quando passa a personagem eu sempre volto um pouco transformada, e isso é o que acho mais interessante da carreira do ator.
Até naquela matéria que a gente fez que você falou de Mutações [livro de Liv Ullmann], e eu disse que a vida de uma atriz é uma “eterna mutação”. A gente vai se transformando, e ser ator é uma oportunidade de amadurecimento, de evolução rápida na vida, se você realmente tiver um aproveitamento bom dessas chances que tem. No momento em que exploro um personagem, que é um arquétipo, sempre penso que ou ele já existiu, ou existe ou um dia irá existir, concretizo muito isso. Conhecendo o outro, você acaba se conhecendo muito. Por isso que você vê, por exemplo, uma entrevista da Fernandona [Montenegro], e enxerga nos olhos dela que ela é um poço de sabedoria! Veja quantas personagens, quantas personas ela teve que conhecer profundamente e o quanto se debateu ali... Isso torna essa profissão fascinante, porque é uma aceleradora de evolução se você souber pegar esse bonde. 

TOP – A escritora Hilda Hilst, que um dia você deverá interpretar no cinema, tinha muita afinidade com o cósmico, com o desconhecido, ela buscava o sentido de existir pelo inatingível. Você se identifica nisso com ela?
Tainá – É, ela considerava ignorantes as pessoas que não tinham esse interesse pelo lado oculto da vida, pelo que existe além da matéria. Eu me identifico com ela um pouco nesse sentido, sim. Ao mesmo tempo em que respeito a simplicidade do não questionamento, quase não consigo entender quem não questiona a vida por um ponto de vista metafísico, sabe? Quem não tem a curiosidade de saber todas as perguntas essenciais: “Como? Por quê? Quando? Por que que estamos aqui? Qual é o grande objetivo?” São grandes questões que sempre moveram a humanidade, inspiraram a filosofia, a arte, a matemática, a ciência, as religiões, e que me movem muito, e acho que moviam a Hilda também. Eu quase não entendo quem não tem essa curiosidade.

TOP – O que deixa você inquieta?
Tainá – Não sei, mas eu nasci inquieta. Eu sou uma alma inquieta. Quando eu tinha 2 anos de idade eu queria aprender a ler, quando eu não estava no colégio eu queria estar, e quando eu estava, já queria estar na faculdade. Sempre tive muita sede de viver as coisas, as experiências. Acho que por isso me acalmei sendo atriz, pois assim tenho a possibilidade de experimentar coisas muito variadas numa vida só. 

TOP – Hilda disse, certa vez: “Eu acho que a vida transborda. Não existe uma xícara arrumada para conter a vida”. Em que momento a Tainá transborda?
Tainá – Aaahh, eu já transbordei tanto que agora eu estou em contenção! (risos) Sempre fui muito levada pelas emoções, sabe? Eu era um pouco mais dramática, mas o drama é bom em cena, fora dela não é tão legal. Hoje tento ver com calma as situações e não me deixar mais levar por todas as emoções, pelas paixões, pela raiva... Eu era um pouco mais irritada, vivia em ebulição, sempre muito passional, eu me deixava levar... Eu era muito, muito impulsiva! E hoje deixo todas essas lascívias, essas paixões, essas coisas mais malucas pra cena. Porque eu tenho várias oportunidades de ser maluca... Em vez de ficar sentada num escritório e escrever, meu dia a dia é gritar, chorar, rir, me emocionar, então já está bom. Eu acho que na vida eu estou cada vez mais querendo o zen. 

TOP – Como é essa sua busca espiritual? Você segue alguma filosofia?
Tainá – Ah, vou bem pelo sincretismo, tenho várias referências que formam a minha crença pessoal, e eu não a acharia em nenhum livro específico. Mas eu cuido da minha energia. E tenho que fazer propaganda de uma pessoa muito legal, que é a Livia França. Ela faz cura prânica e é incrível, maravilhosa!

TOP – As experiências mais intensas da sua vida vieram junto com a carreira de atriz? Qual foi a mais forte que se lembra hoje?
Tainá –Profissionalmente eu acho que Cão sem dono (2007) foi muito emblemático pra mim, foi o início da minha carreira e o primeiro contato radical com a profissão. Eu lembro até hoje quando o Beto [Brant] me chamou pra fazer o filme, parecia que eu andava e o chão afundava, parecia que estava com um sapato de nuvem... Eu andava na rua meio aérea, de tão feliz que me sentia. Mas eu sou muito intensa em tudo o que eu faço, então...

TOP – O que é luxo pra você?
Tainá – Luxo? Silêncio. Natureza e silêncio. É o novo luxo. 

TOP – Como foi contracenar com nossa mascote, a gata Fiona? (risos)
Tainá –A gata Fiona!? Eu sou apaixonada por gato! Aliás, eu me vejo no futuro a velha dos gatos, sabe? Aquela meio corcunda que tem uma casa com 30 deles... (risos) Não, mas tem um perigo de isso acontecer porque eu sou louca por gatos, acho um bicho muito especial. Eu consigo me comunicar com os meus no silêncio.

TOP – Em nome do silêncio, já que finalmente chegamos ao aeroporto, pensou naquele nome durante o trajeto?
Tainá –Não deu tempo! Mas vou continuar pensando... (risos)

Entrevista: Melissa Lenz
Fotos:Mauricio Nahas
Styling: Juliano Pessoa & Zuel Ferreira
Beauty: Lavoisier para Eudora (Capa MGT)
Produção de moda:Patricia Grossi, Luiz Bonassoli e Giovana Grassi
Produção de objetos:Cássia Tabatini
Produção executiva: KKrecas Ideias
Assistentes de fotografia: Fabrício Marconi, Vitor Garcia e Gabriel Golizia
Assistente de beauty:  Julio Cardim
Agradecimentos
Alexandre Herchcovitch. Tel: (11) 3063-2888
Gloria Coelho. Tel: (11) 3083-1079
Fabiana Milazzo. Tel: (11) 3081-6359
Lethicia Bronstein. Tel: (11) 3081-1635
Patrícia Bonaldi. Tel: (11) 3062-5020
Red Valentino. Tel: (11) 3274-7890
Repetto. Tel: (11) 4873-5620
Silvia Furmanovich. Tel: (11) 3152-6200


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