“Há algo agradável nas tempestades que
interrompem a rotina. A neve ou a chuva gélida nos liberam subitamente
das expectativas, das exigências de resultados e da tirania dos
compromissos e dos horários. Ao contrário da doença, esta é uma
experiência mais coletiva do que individual. Quase podemos ouvir um
suspiro de alívio erguer-se em uníssono na cidade próxima e no campo,
onde a natureza interveio para dar uma folga aos exaustos seres humanos.
Todos os afetados pela tempestade são unidos por uma desculpa mútua. De
súbito e inesperadamente o coração fica um pouco mais leve. Não serão
necessárias desculpas por não comparecer a algum compromisso. Todos
entendem e compartilham a mesma justificativa, e a retirada súbita de
qualquer pressão alegra a alma. É claro que as tempestades também
interrompem negócios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho
extra, outras perdem dinheiro – o que significa que existem os que não
sentem júbilo quando tudo fecha temporariamente. Mas é impossível culpar
alguém pela perda de produção ou por não conseguir chegar ao
escritório. Mesmo que a situação só dure um ou dois dias, de algum modo
cada pessoa se sente dona do seu mundo simplesmente porque aquelas
gotinhas de água congelam ao bater no chão. Até as atividades comuns se
tornam extraordinárias. Ações rotineiras se transformam em aventuras e
freqüentemente são vivenciadas com maior clareza.”
| A Cabana |
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