“Li em algum lugar que a gente é feito de poeira das estrelas, um cara disse, achei bem bonito. Olhei pro céu mais algumas centenas de vezes, enxerguei uma estrela cadente, achei estar ficando louco, fiz um pedido mesmo assim, me senti bem depois. Se a gente é feito de poeira das estrelas, numa casa muito grande, num espaço muito familiar, gente comendo, conversando, sorrindo, amando: eu vejo uma avó um pouco corcunda, mas sorridente; vincos fundos no rosto, cabelo grisalho, um chuva forte acima da cabeça. E ela varre. Com passos ritmados, com uma calma assustadora, com uma esperança imaculada, como se possuísse dentro de si algo desconhecido aos outros — ela varre pra longe essa poeira colorida e brilhante que é o que a gente é. Se a gente é feito de poeira das estrelas, num quarto extremamente quente, um garoto pertinho dos quinze anos, aquela parte onde tudo é infinito, livros de a a z espalhados pela estante de uma madeira que nem se possibilita saber qual é: abrir um livro há muito tempo fechado é desabrochar um mundo completamente novo. É liberar pó pelo quarto, é mergulhar no colorido inerente, é estar em alguma nebulosa antiga, voando, vendo planetas, entre essa coisa magnífica — que é o que a gente é. Se a gente é feito de poeira das estrelas, um mundo grande e cheio, de gente louca e sã, de gente burra e esperta, de gente que vai e de gente que por medo fica; se a gente é feito de poeira das estrelas, cidades, países, oceanos, atlânticos, desertos, lugares — o mundo todo é feito de poeira das estrelas porque o mundo todo nos é, e nós, em nossa singularidade doente, também o somos. Num dia chato de escola, professorzinho alto, bonito, dizia muito claro: “as estrelas explodem.” Veio à minha mente agora: a gente vai explodir? A gente vai desaparecer? A gente vai sublimar? A gente vai virar vazio? A gente vai se perder pelo vácuo? A gente vai deixar de ser? A gente vai virar escuro? Ou esses grãozinhos que caminham por aí à procura de água, de comida, de amor — esses grãozinhos vão se esconder pelos buracos até que num futuro distante algo gigante encontre esse planeta, sacuda tudo que há pra sacudir, entenda, e depois, simplesmente nos tire, com um sopro nem tão forte assim, mas suficiente, de toda a face da história terrena?”
Circos
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