“A natureza da saudade é ambígua: associa
sentimentos de solidão e tristeza - mas, iluminada pela memória, ganha
contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como
“delicioso pungir de acerbo espinho”, estava realizando a fusão desses
dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico. Em geral,
vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se
ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo
perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o
futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é,
pois, uma constante saudade. Há uma saudade queixosa: a que desejaria
reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas
passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua
essência da eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar
permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é,
paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.”
| Cecília Meireles. |
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